Docente da FAJ comenta a incidência da doença
A tuberculose (TB) é uma doença infecto-contagiosa considerada uma pandemia mundial. Um terço da população do planeta está infectado com o Mycobacterium tuberculosis e representa, em números, aproximadamente dois bilhões de pessoas. Em 2005, morreu 1,6 milhões de pessoas, número que estimadamente representa 4.400 mortes por dia. Além disso, a tuberculose é a principal causa de morte em pessoas infectadas pelo HIV, matando aproximadamente 200.000 pessoas HIV-positivas por ano (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2007 a).
Há mais de uma década, em 1993, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarava estado de urgência a situação da epidemia de tuberculose no mundo e convocava governos, sociedades científica e civil para intensificar os esforços no controle da doença. Considerando a desigualdades sociais, insuficiência de pesquisas visando o desenvolvimento de novos tratamentos e vacinas, fluxos migratórios, deficiência do sistema de saúde e alta prevalência dos casos de tuberculose multidrogas resistente fatores preponderantes para esta grave situação. Está presente quase exclusivamente em países em desenvolvimento, economicamente pobres, com 98% dos casos (BARREIRA; GRANJEIRO, ARRASCUZ, 2004).
A incidência mundial da tuberculose permanece estável, porém, na África, Mediterrâneo Oriental e Ásia Sudoriental o número total de casos vem aumentando, ressaltando que a África é o continente no qual se concentram as mais altas taxas por habitantes, correspondendo a 28% dos casos de tuberculose no mundo. (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2007 a).
Na América Latina, a incidência e a prevalência da tuberculose estão decrescendo. Dados de 1994 até 2003 demonstram que está havendo um declínio de 1,6 casos ao ano, relativo a todas as formas de tuberculose e 2,6 casos ao ano para casos de baciloscopia positiva. Este declínio nos números de incidência e prevalência se deve ao fato de que houve um decréscimo nos registros de casos de tuberculose em países como o Brasil, Chile, Costa Rica, Cuba e Peru, principalmente pela implantação da estratégia DOTS – Directly Observed Treatment Short Course (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2007 b).
Embora os dados mostrem um declínio, ainda no Brasil, a prevalência da tuberculose está estimada em 50 milhões de pessoas infectadas e a incidência e mortalidade são, respectivamente, 85 mil casos novos/ano e 6 mil óbitos/ano; o coeficiente de incidência representaria 47/ 100 000 habitantes. Essa situação confere ao país a décima quinta posição entre os 22 países que concentram a maior carga de tuberculose no mundo. A Índia encontra-se na primeira posição, e na vigésima segunda o Afeganistão, sendo o Brasil o único país americano entre esses países (BRASIL, 2007; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2001, apud HIJJAR; OLIVEIRA; TEIXEIRA, 2001).
As mortes causadas por tuberculose no Brasil acontecem principalmente relativas à “comorbidade TB-AIDS, ao atraso no diagnóstico e principalmente ao uso irregular e ao abandono da quimioterapia” e inexpressivamente por tuberculose multirresistente, pois ainda não é muito freqüente no Brasil. Em 2004, as capitais estaduais e DF concentravam 32,3% dos óbitos por tuberculose no Brasil e 56,6% destes óbitos aconteciam em regiões metropolitanas. As regiões Norte e Nordeste correspondem às maiores taxas de mortalidade por TB, em seguida, as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul (BIERRENBACH et al, 2007).
Elaborado pelo Ministério da Saúde, em 1996, o Plano Emergencial para o Controle da Tuberculose foi implantado no Brasil adotando a estratégia DOTS como Estratégia do Tratamento Supervisionado. Em 1999, esta estratégia formalizou-se no Programa Nacional de Controle da Tuberculose – PNCT e tornou-se imprescindível para que o Brasil atinja sua meta de cura de 85% dos infectados e 90% dos casos diagnosticados. Desse modo, todos os municípios brasileiros, por meio de seus gestores, sociedade civil, universidades e centros de pesquisa devem atuar nas ações de controle, inseridas no campo das práticas da atenção básica, de forma planejada e articulada para que garantam o funcionamento pleno da estratégia DOTS (BRASIL, 2007; RODRIGUES et al, 2007). Villa et al. (2006) referem que há uma propensão à mudança no campo da prática, com enfoque na atenção primária à saúde, mas ainda não se manifestou suficientemente na formação do aluno de enfermagem na assistência à tuberculose, pois ainda o ensino prático não fornece instrumentos que sistematizem a assistência ao tuberculoso, à sua família e à sua comunidade, como habilidades clínicas, gerenciais e de vigilância à saúde.
A desarticulação entre ensino e serviço, a ausência de controle social na formulação políticas específicas, tem sido observada freqüentemente na formação de profissionais de saúde, que na maioria das vezes, está centrada em um modelo de ensino focado nas ciências básicas em detrimento da valorização da promoção e prevenção de saúde. (NORONHA; SOPHIA; MACHADO, 2002).
A DOENÇA
A tuberculose é uma doença infecto-contagiosa que acomete principalmente os pulmões, contudo, também podem ocorrer em outros órgãos do corpo, como ossos, rins e meninges.
Etiologia
O patógeno responsável pela tuberculose é o Mycobacterium tuberculosis também designado bacilo de Koch, nomenclatura que faz alusão a seu descobridor, Robert Koch. A doença também pode ser causada, embora raramente, por outras micobactérias como o Mycobacterium bovis, Mycobacterium africanum e Mycobacterium microti.
O Mycobacterium tuberculosis multiplica-se lentamente e apresenta-se estritamente aeróbico, o que explica sua preferência em parasitar o pulmão, já que este órgão é o local do organismo que possui as maiores tensões de oxigênio.
Este bacilo é resistente a agentes químicos, mas, pode ser eliminado por agentes físicos como a luz solar devido a sua sensibilidade ao calor e a radiação ultravioleta.
Transmissão
A transmissão ocorre comumente através da via aérea, única via importante no contágio, no entanto, embora seja raríssimo e epidemiologicamente insignificante, é possível a transmissão através de vias como, por exemplo, a digestiva e a cutânea.
O contágio por meio de via aérea se dá de pessoa para pessoa quando um doente de tuberculose pulmonar bacilífero elimina gotículas aerossóis e os núcleos secos destas gotículas (Núcleo de Wells) contendo o bacilo em seu interior são inaladas por um indivíduo suscetível e atingem seus bronquíolos e alvéolos.
Fatores determinantes do contágio
A probabilidade de uma pessoa se infectar após contato com um doente bacilífero depende de alguns fatores e suas interrelações como, por exemplo:
• Características do doente bacilífero: a transmissibilidade está diretamente relacionada com a capacidade do foco em produzir gotículas com núcleo de Wells, e esta capacidade apresenta-se aumentada em indivíduos com melhor estado geral devido sua tendência em produzir tosse mais vigorosa;
• Intensidade e freqüência do contato: comunicantes intradomiciliares e aqueles com grau de parentesco têm maior chance de ser infectados;
• Condições ambientais: ambientes com pouca ventilação aumentam a probabilidade de transmissão;
• Características do comunicante (contato): crianças, idosos, tuberculino negativos e indivíduos portadores de doenças ou condições imunossupressoras são mais suscetíveis tanto a aquisição da infecção quanto da doença.
A relação existente entre as condições ambientais e características do comunicante nos remetem ao caráter sócio-econômico desta doença. Existe uma relação intrínseca entre a disseminação da tuberculose e as más condições de vida da população como, por exemplo, a desnutrição que deprime as defesas do organismo e a precariedade nas habitações com deficiência de saneamento, aeração e concentração de pessoas convivendo no mesmo ambiente.
Período de incubação
Cerca de 4 a 12 semanas após a infecção é possível a detecção das lesões primárias. A maior parte dos novos casos de doença pulmonar ocorre, aproximadamente, por volta de um ano após a infecção inicial.
Sinais e sintomas
A tuberculose é uma patologia de evolução crônica, os sinais e sintomas são de intensidade crescente, podendo haver períodos de remissão. A tuberculose pode ser assintomática, contudo isso ocorre na minoria dos casos.
Os sinais e sintomas gerais relacionados à doença pulmonar são fadiga, anorexia, emagrecimento, sudorese noturna e febre baixa que ocorre no período vespertino.
Os sinais e sintomas pulmonares são tosse seca no início, podendo na evolução da doença provocar expectoração mucosa e purulenta, hemoptise, dispnéia, dor torácica e rouquidão.
Nas formas extrapulmonares, os sinais e sintomas variam de acordo com a localização e a gravidade do caso.
A prevenção primária se dá por meio de imunização com a vacina BCG, busca ativa de casos objetivando o diagnóstico precoce e quimioprofilaxia primária destinada a evitar a infecção. A prevenção secundária é possível por meio de quimioprofilaxia secundária indicada aos pacientes já infectados pelo bacilo a fim de evitar a doença. A prevenção terciária ocorre com o correto tratamento, evitando que a doença evolua para óbito ou seqüelas respiratórias e, pode também, ser considerada prevenção primária uma vez que, curando o doente, há eliminação de uma fonte de infecção.
Considerando a importância das características ambientais e do comunicante nos fatores determinantes do contagio, ressaltamos que a promoção da saúde através da melhoria das condições de vida da população com nutrição adequada, moradia apropriada e educação em saúde é também, extremamente importante na prevenção da doença.
Enfermeira Profa Dra Celene Aparecida Ferrari Audi
Enfermeiras: Analu Lima Ataide e Paula Ferreira Filizola
POR: CELENE APARECIDA FERRARI AUDI